segunda-feira, 27 de abril de 2009

Mestre Athayde - Uma arte que impressiona



Arte simples e robusta de um Mestre Brasileiro



A cultura brasileira é repleta de artistas que impressionam pela beleza e maestria na arte simples e ao mesmo robusta. Um dos lugares que mais me chama a atenção no cenário estético nacional é a cidade de Ouro Preto, tombada pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional.

Ali, podemos encontrar obras de alguns dos grandes artistas brasileiros, dentre os quais, destaco, Aleijadinho e Mestre Athayde, donos de um acervo magnífico e explendoroso.

Analisemos com mais afinco uma das obras de Mestre Athayde, por quem sou apaixonada, não só pelas suas características estéticas, mas também, pela representação de uma linha de pensamento colonial. Trata-se do painel “Assunção da Virgem Maria”, uma das obras primas de pintura de perspectiva do acervo brasileiro, pintada no teto da nave central da Igreja da Ordem Terceira de São Francisco de Assis em Ouro Preto, Minas Gerais.

Para entendermos cada contorno desse painel tão bem talhado naquele lugar, vale uma breve pesquisa sobre o momento histórico pelo qual,nós brasileiros, passávamos, marcado pela arte barroca e rococó do século XVIII, as características representadas por Mestre Athayde e um pouco de sua vida.



O Trem da História




Para que possamos nos situar melhor no momento histórico que viveu Manoel da Costa Athayde, farei aqui, um resumo que indicará as características da sociedade que se formara na região das Minas Gerais desde seu surgimento, na virada do século XVII até o século seguinte, quando então chegaremos ao auge da vida de nosso Mestre.

A descoberta do ouro e pedras preciosas na região das Minas ocorre somente 200 anos depois da chegada dos portugueses no Brasil, o que acelerou o processo de urbanização desta região, surgindo assim, cidades com nomes que aludiam às riquezas locais, como Vila Rica, hoje Ouro Preto.

O trabalho nas minas era sustentado pela mão-de-obra escrava negra. Em poucos anos, a população de negros constituía maioria em Minas. Muitos foram deslocados dos canaviais do Nordeste, outros vinham diretamente da África. Os escravos homens trabalhavam na extração do ouro, enquanto as mulheres, em menor número, dedicavam-se às características agrícolas e aos serviços domésticos.

Mas a caracterização da sociedade mineira extrapola o binômio senhor-escravo. Entre essas duas classes havia um grande contingente de homens livres, pobres, miseráveis, vivendo à margem da produção, comendo e vivendo mal, por muitas vezes, cometendo todo tipo de delitos e crimes. Sobre estes, recaía todo tipo de repressão, pois representavam uma ameaça constante à hierarquia estabelecida pelos direitos régios.

Esses homens, ainda considerados inúteis e periogosos para o sistema, foram de extrema importância em algumas atividades consideradas de risco como a repressão aos quilombos, extração de ouro em áreas de risco, abertura de estradas, entre outras atividades.

O comércio se desenvolveu rapidamente para suprir as necessidades criadas com a mineração. Os comerciantes se tornariam em breve tão prósperos quanto os proprietários de minas e a Igreja sempre esteve presente no processo de colonização da América Portuguesa. O fervor missionário da Igreja Católica fazia parte do dia-a-dia da vida na colônia.

Porém, nas Minas, o Estado Absolutista Português, coibiu a disseminação das ordens religiosas, pois os frades eram acusados de contrabando e conclamavam o povo ao não pagamento de impostos à coroa.

Tal fato trouxe à tona outro tipo de organização eclesiástica. A população se estruturou em Irmandades religiosas. O desenvovimento social em Minas no século XVIII passa tanto pela organização política e administrativa da economia do ouro, quanto pelo comportamento religioso praticado na Capitania. É importante destacarmos que a arte, neste período, trabalhava essencialmente para essas instituições.

Tão logo fundava-se um arraial, erguia-se ali uma capela. Tinham, inicialmente, a simplicidade e a precariedade das condições de ocupação em solo virgem. Com o passar dos anos, essas edificações vão sofrendo mudanças, crescem e se embelezam até se tornarem as grandes matrizes dos arraiais e vilas.

As disputas entre as Irmandades poderosas existentes tornavam as Igrejas cada vez mais exuberantes, contribuindo para a composição de um acervo artístico e arquitetônico extraordinário.

As irmandades eram formadas por pessoas leigas da sociedade. Os grupos interessados em fundar uma irmandade elaboravam uma espécie de carta de compromisso que era submetida à Coroa Portuguesa e à Sé Apostólica da Igreja. A construção ficava a cargo da própria população e se dava por meio de doações e dízimos para que os administradores daquela irmandade contratassem artistas e artesãos para edificação dos templos.

A segmentação da sociedade em Minas refletiu-se no número e na estética das construções religiosas. Ouro Preto é, neste sentido, o lugar predileto para se observar a história das irmandades. A supremacia espacial e arquitetônica de um bairro ou cidade era disputada e demonstrada por meio de seus templos religiosos.

Esteticamente, muitos fatores concorreram para as similitudes e diferenças entre os monumentos religiosos. A começar pelo poder aquisitivo das irmandades. Quem tinha mais riquezas, podia contratar os melhores artesãos e artistas.

Com a decadência do ouro, muitas irmandades desapareceram, sobrevivendo apenas aquelas formadas pelos homens mais ricos, dentre as quais destaco a Ordem Terceira de São Francisco de Assis que consegue produzir um dos monumentos mais arrojados das Minas Gerais.

É neste templo religioso que está localizada a obra “Assunção da Virgem Maria” de Mestre Athayde.



Concepção Estética




Classificamos a arte representada em Minas Gerais durante o século XVIII e meados do século XIX como arte colonial, que interpõe as artes barroca e rococó.

O termo barroco, de origem portuguesa, designa pedra irregular, de formato imperfeito que aplicado ao universo da arte simboliza imperfeição e exuberância. Enquanto rococó deriva da palavra francesa rocaille (rocalha), termo empregado para designar o uso de rochas e conchas empregado naquele momento.

Como artistas-artesãos do mesmo período, Athayde segue cânones importado de Portugal. Em geral, as cenas a serem executadas eram copiadas de gravuras estampadas em livros sagrados, sendo o artista responsável apenas pela adaptação da imagem ao espaço e aos recursos técnicos disponíveis.

Athayde trata as cenas com grande expressividade, eliminando os aspectos solenes presentes nos modelos. Esta linha expressiva que tende a criar corpos volumosos e lânguidos, que quase não conhece ângulos retos e tranforrma a anatomia em traços curvos torna-se uma de suas principais marcas estéticas.

No que diz respeito à pintura de perspectiva de forro, o artista segue esquema de inspiração rococó elaborados em meados da segunda metade do século XII em Minas que se caracteriza pelo medalhão em forma de quadro recolocado emoldurado de rocalhas sustentado por maciças pilastras que assentam na parte média das paredes reais da igreja.

O espaço arquitetônico ilusório tende a ser recheado de anjos, figuras bíblicas, concheados, laçarias, ramalhetes de flores ligados sempre uns aos outros, dando um ar de leveza e ritmo à totalidade da composição e as cores utilizadas são, em geral, ricas em tons de vemelho, azul, branco, amarelo, sépia e marrom segundo os padrões do período.

O alto valor artístico de Manoel da Costa Athayde encontra-se na superioridade técnica de suas realizações, marcadas pelo perfeito desenho de perspectiva e corpos em escorço, pela harmonia cromática e pelo, já citado, desenho altamente expressivo.



Um Pouco Sobre Mestre Athayde




Nascido em 1762 na cidade de Mariana, Minas Gerais, Manoel da Costa Athayde é considerado importante artista do barroco mineiro.

Dentre as funções desempenhadas por ele, podemos destacar as de pintor, dourador, entalhador e alferes.

Casou-se com Maria do Carmo Raimunda da Silva que lhe deu quatro filhos: Francisco de Assis Pacífico da Conceição (seu testamenteiro), Maria do Carmo Néri da Natividade, Francisco Rosa de Jesus e Ana Umbelino do Espírito Santo.

Mestre Athayde ficou conhecido pelos seus anjos e virgens mulatos, cuja inspiração teria encontrado em sua companheira e filhos.

Filho de portugueses, não se sabe ao certo como se dá sua formação artística, mas é provável que seu pai tenha contribuído neste sentido. Apenas nota-se em suas obras alusões a Manoel Rabelo de Souza e João Batista Figueiredo.

Foi pintor de prestígio em sua época, aparecendo em documentos como professor de arte e pintura. Executou para a Ordem Terceira dos Franciscanos de Ouro Preto uma vasta decoração que culmina com a pintura do forro da nave, obra de referência desta pesquisa.

Em 02 de fevereiro de 1830 falece e foi sepultado nesta mesma Igreja, pois é integrante desta Ordem e é ali que se eterniza sua mais bela e magnífica obra de arte.



“Assunção da Virgem Maria”


Considero esta, a maior e mais perfeita de todas as obras de Mestre Athayde. Trata-se do grande painel que representa a Assunção da Virgem Maria pintada no forro da nave central da Igreja da Ordem Terceira de São Francisco de Assis em Ouro Preto, Minas Gerais.




A pintura recobre toda a superfície interna do teto da igreja e sugere a inexistência de forro. É como se o espectador estivesse diante do céu natural.

Notamos nesta pintura a utilização do tropel’oiel, técnica francesa caracterizada pelo engano óptico que por meio de desenhos e pintura nos dá a sensação visual de profundidade.

Quem tem o prazer de observar essa magnífica obra de arte impressiona-se com essa característica. Quando se caminha no centro da nave central em direção ao altar-mor da Igreja olhando para o teto, tem-se a sensação de estar sendo observado por cada figura ali retratada. É como se estivéssemos diante de uma cena real, visualizando um milagre acontecendo naquele exato momento diante de nossos olhos.

Notamos nos personagens, Virgem e anjos, a cor amulatada, que conforme já vimos anteriormente seria uma alusão à sua mulher e filhos, que constantemente eram fonte de inspiração para o artista.

No núcleo da pintura, vemos o medalhão central com a imagem da Virgem rasgando o céu envolta por raios dourados, representando a glória da eternidade celestial.

Interessante notar como a Virgem Maria é ironicamente alavancada por um anjo flautista que empurra seu corpo para as alturas, como um corpo com peso e portanto ligado à matéria e tudo aquilo que temos que deixar para trás ao fim de nossas vidas.

Há ali uma orquestra de anjos como se estivessem ao som de uma pacífica cantoria que representam a serenidade do momento de ascensão espiritual.

As colunas de origem clássicas greco-romana têm o tratamento rebuscado e decorativo, próprio da estética barroca, funcionando como linha de fuga e dando a sensação de sustentação de obra de tal grandeza.


Enfim, esta pintura representa um momento histórico brasileiro e um pensamento religioso da sociedade daquele momento, mostrando aos homens ricos, que freqüentavam aquela irmandade, a necessidade de se viver a prosperidade material levando-se sempre em conta que para o plano espiritual nada daquilo poderia prendê-los.

Mestre Athayde alcança nesta pintura a supremacia de seu pensamento, a marca de seu dom estético, nos deixando como herança uma das mais belas obras primas do acervo patrimonial brasileiro.




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